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Em 1096, um filho segundo sem herança recebe do rei de Leão a terra que ninguém queria.
Uma faixa de fronteira entre o Minho e o Mondego, com os mouros a uma cavalgada de distância e o mar a fechar as costas. Terra de onde não se foge, só se vence ou se fica. Chama-se Henrique de Borgonha, não traz exército nem dinheiro, traz um método.
Aprendeu-o em criança, numa casa da Borgonha onde o poder e o crime dormiam na mesma cama, a ver tudo do degrau mais alto da escada por ser o mais novo de sete e não contar para nada. Contava as bocas antes de contar as lanças, comprava lealdades com cartas de foral em vez de as comprar com espadas, esvaziava os poços em vez de dar batalha. E esperou trinta anos por uma porta que só se abriu porque um monte de cabeças cantou ao amanhecer num campo perto de Badajoz.
Ao lado dele, Teresa, filha natural de um imperador, criada como infanta e lembrada todos os dias de que o não era. Não foi mulher de conde, foi a outra cabeça de um governo com duas, e o que os dois combinavam ao meio-dia, sobre uma sopa e sem convidados, decidia mais do que os conselhos de vinte barbas.
Governaram assim dezasseis anos, sem levantar a voz e sem deixar rasto, que é o modo de governar que os arquivos não sabem contar. Ao fim deles havia uma terra que era um país e ainda não tinha nome, e um menino de três anos a quem tudo aquilo ficava. Chamava-se Afonso.
Trinta e oito capítulos contados como se contavam à lareira, do banquete de Semur, onde um genro matou o sogro à frente da corte, à cama de Astorga onde tudo se fechou. Pelo meio, Sagrajas e o grito do sul, a corte do imperador Afonso VI, as bodas de Guimarães, os forais que compraram um povo, a peregrinação a Jerusalém, o pacto nas costas do rei e o nascimento do herdeiro.
Neste livro há apenas dois sinais, a vírgula e o ponto final. Não há pontos de interrogação nem de exclamação, os diálogos não levam travessão nem aspas, cada fala tem a sua linha. Os parágrafos não fecham em ponto, ficam abertos, e é a mudança de linha que os acaba. Não é capricho nem distração, é uma maneira de escrever para ser ouvida, ao ritmo da respiração de quem conta. Ao fim de duas páginas o ouvido faz o resto.
Quem manda com a boca manda pouco, que a ordem mais forte é a que se dá calado.
O Governo do Silêncio é a história do homem que fez um reino e morreu sem o ver, e da mulher que ficou a governá-lo.
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