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Esta é a primeira tradução anotada e integral para o português brasileiro de A Feiticeira, de Jules Michelet (1798-1874). Sem dúvida, esse livro de 1862 éo título micheletiano que melhor atravessou o tempo, desembarcando no século XX como seu texto mais comentado e avançando para o XXI com a mesma potência de atualidade. Recorrendo a um recorte de longa duração, a narrativa retraça a história da feitiçaria de matriz cristã desde as origens medievais até o último caso julgado por um tribunal francês no início do século XVIII. Assumidamente história dos vencidos, o tema da feitiçaria permite que o historiador radicalize seu então já velho objetivo de investigar e narrar a história a partir dos 'de baixo'. Mas ele também é uma história das mulheres, que denuncia e enfrenta a misoginia multissecular que as designa, prioritariamente,como feiticeiras. Esses dois elementos - o tema e o recorte cronológico - são aqui tratados em visada ampla, franqueando uma análise que mobiliza fatores religiosos, políticos, econômicos, culturais e intelectuais que colaboraram a forjar o 'crime' da feitiçaria e o feminicídio dele decorrente. Finalmente, este livro contém em filigrana uma possível outra história da relação entre os homens e a Natureza, o que o torna facilmente legível sob a ótica da ecocrítica contemporânea.Todos esses elementos estão aqui concentrados numa das narrativas historiográficas mais radicais de Michelet, aquela que não temeu o 'pecado' de fabricar e dispor, no coração da História, um 'leve fio fictício', 'a vida de uma mesma mulher durante trezentos anos'. Por essas razões, o livro predileto de Roland Barthes, Marguerite Duras e tantos outros ainda pode se converter no livro predileto de quem vier a o descobrir.
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